O PT não confia em Ciro, que não confia no PT

0

É bem confusa a relação de Ciro Gomes, que recém saiu de sua terceira campanha frustrada à Presidência da República, e o Partido dos Trabalhadores (PT). Há, na decisão do político cearense de esnobar os apelos quase desesperados de gente da cúpula petista para que entrasse para valer na campanha de segundo turno de Fernando Haddad, razões específicas que precisam de uma análise mais aprofundada para que sejam captadas e se possa projetar os efeitos futuros prováveis.

Primeiro, não parece muito fácil encontrar sentido na justificativa de que Ciro precisava descansar, depois da maratona intensa que foi a campanha de primeiro turno. Tudo bem que ele enfrentou um susto que o levou ao hospital e o fez dormir pelo menos por uma noite no Albert Sabin, em São Paulo, sem que isso o impedisse de seguir firme até o último dia da briga pelo voto. E, até, de oferecer ao País uma das melhores entrevistas de um candidato derrotado nos últimos anos, pela forma e pelo conteúdo.

A opção pela viagem e pelo distanciamento da campanha, por um lado, pode indicar que não ir ao segundo turno acabou fazendo um grande bem à saúde de Ciro, considerando-se verdadeira a versão de que ele “precisava descansar”. A coisa está tensa e inexiste indicativo de que seria diferente caso Ciro estivesse entre os dois classificados à etapa decisiva na disputa presidencial, podendo-se imaginar que, ao contrário, a temperatura política tenderia a estar ainda mais alta. Exatamente pela presença dele entre os contendores.

De volta lá ao tema da relação de amor e ódio entre o mais velho dos Ferreira Gomes e o PT, a primeira grande barreira que há entre eles envolve uma parte boa do petismo local que, simplesmente, não tolera o ex-governador. A coluna chegou a acompanhar uma reunião que tinha gente da campanha nacional e lideranças petistas cearenses quando o cenário era analisado retroativamente e se colocou em discussão as chances (àquela altura já superadas) de Ciro ser candidato à presidência representando uma frente da qual o PT faria parte, indicando um nome à vice. A ideia era defendida como viável durante fala de um nome nacional de peso quando uma voz feminina bem cearense praticamente o interrompeu com um enfático “de jeito nenhum!”

Com a derrota de Ciro Gomes já oficializada e a de Fernando Haddad bem encaminhada, já se começa a agir focando um futuro mais distante. Há quem considere que o gesto do cearense indicou seu primeiro movimento de olho em 2022, data da próxima sucessão presidencial, objetivando demarcar seu espaço dentro de um campo definido como progressista. O cálculo, no entanto, pode estar impreciso, porque, a despeito dos baques que já sofreu, devido a derrotas emblemáticas, como as de Dilma Rousseff em Minas Gerais e Eduardo Suplicy em São Paulo na briga por vagas ao Senado, o PT não sai destruído do processo eleitoral. Foi o partido mais votado, tudo somado no plano nacional, e terá a maior bancada da Câmara Federal na troca de composições que acontece no começo de 2019.

Portanto, o ex-governador cearense precisará brigar muito para ocupar o espaço que começa a almejar nos seus planos político-eleitorais de longo prazo.

 

Com Informações O Povo 

Não existem avaliações

Deixe sua avaliação

DEIXE SEU COMENTÁRIO

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.