Filme que encerra a trilogia de “Planeta dos Macacos” estreia nesta quinta-feira

0

Planeta dos Macacos: A Guerra é um filme que, apesar da sugestão do título, não se concentra exclusivamente no conflito entre dois exércitos. O diretor Matt Reeves, depois de dirigir Planeta dos Macacos: O Confronto (2014), presta uma homenagem direta aos clássicos filmes de guerra, como Platoon (1986) e Apocalypse Now (1979), além, é claro, de mostrar aquilo que o cineasta e crítico de cinema Éric Rohmer disse em seus textos: “Cada filme é um retrato de sua época”. Deste modo, é inegável notar que a essência de César, personagem central da trilogia iniciada em 2011, busca paz em um mundo que, independente da época, só garante o lado sombrio – o que representa bem a nossa realidade.

Três anos depois de O Confronto, quando uma aproximação entre macacos e humanos foi frustrada pela traição de Koba, César se mantém como uma figura mítica para as duas raças, e vive recluso na selva. Ainda em busca constante por paz, uma tragédia pessoal coloca suas crenças em xeque. É quando uma luta por vingança coloca a vida na Terra como um prêmio para a espécie vencedora.

Em determinado momento de A Guerra, filme que chega nesta quinta-feira, 3, aos cinemas, um símio diz ao outro que este último está se transformando em Koba, antagonista de O Confronto. O segundo personagem reage com uma raiva inesperada, ainda que permaneça imóvel ao escutar as palavras do acusador. Essa reação demonstra que o diretor segue assinando a franquia com um discurso em busca de uma reação de choque.

O vilão de A Guerra, interpretado por Woody Harrelson, em contrapartida, se difere por sua psicopatia, mesmo quando se inspira na religião messiânica. Ele, quando desafiado, manifesta raiva e uma reação que flerta com a destruição alheia. Algo muito semelhante aos testemunhos de alguns de políticos, brasileiros ou não, sobre pessoas negras, imigrantes e mulheres.

Tal espelhamento, por outro lado, já havia sido muito bem retratado no livro que deu origem à franquia Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle, e no filme original de 1968. A obra reflete em seus personagens uma temática ainda mais sombria que nas excelentes sequências anteriores, como se o coração do protagonista ficasse mais escuro com o passar dos filmes.

Logo, a obra já impressiona em sua abertura com uma pista da guerra entre espécies que está por vir. Os símios, liderados por César, fogem depois dos eventos do filme anterior com apenas um foco: paz, algo que, no ponto de vista do líder, não funciona mais para os humanos. A falta de união já tinha sido argumentada por Koba no filme anterior e por outras obras sobre a relação do humano e animal. É o caso de A Revolução dos Bichos, de George Orwell, em que animais, em busca de harmonia, entram em conflito com os homens.

Entretanto, para a empatia pelos símios existir, o filme necessitava avançar em seus efeitos visuais. O resultado do trabalho da Weta Workshop é uma viagem ao mais belo grau de perfeição. A textura da pele, os músculos, as lágrimas e o brilho dos olhos impressionam e encantam, como aquele momento em que César observa um símio ser chicoteado. Outro plano exemplar pode ser visto quando o protagonista anda entre o bando, como um messias. O diretor usa uma câmera subjetiva, como se o público caminhasse entre os primatas.

Inclusive, o símio, interpretado sabiamente por Andy Serkis, é, mais uma vez, uma amálgama de sentimentos. Quando o herói fica de coração partido, com raiva ou feliz, o público também fica. É um exemplo de competência cinematográfica que inspira público e outros astros do cinema moderno. A interpretação de Serkis um soco no estômago.

A produção, por fim, conseguiu executar uma trilogia que, ainda que não seja perfeita, é importante. A Guerra, a última parte, é uma carta do diretor e de toda a sua equipe aos que provocam a discórdia, assim como para os que exercem o altruísmo. Todos os públicos cabem nesta aventura, principalmente aqueles que ignoram e pensam que tudo está perfeitamente normal. Neste sentido, podemos observar que a arte continua a oferecer discussões enfreáveis sobre a realidade. Planeta dos Macacos: A Guerra merece uma chance, independentemente de sua reação ao ouvir o discurso plantado pela obra.

A FRANQUIA

Planeta dos Macacos (1968)

O filme, estrelado por Charlton Heston, mostra um grupo de astronautas chegando a um planeta desértico, onde símios são os evoluídos e humanos os selvagens. Heston é Taylor, homem salvo pelos chimpanzés Zira e Cornelius, e luta para descobrir a verdade por trás desse planeta. Sucesso de bilheteria, a franquia se tornou exemplo de que a ficção científica na década de 1960 rendia muitas aventuras.

De Volta ao Planeta dos Macacos (1970)

A continuação trouxe uma aventura parecida com a anterior, onde um astronauta passa pelos caminhos de Taylor, encontrando os mesmos personagens e desafios. No fim, há uma batalha entre os humanos, símios e mutantes. Isso que causa a morte de alguns personagens do primeiro filme, que, infelizmente, não tiveram profundidade na continuação.

A Fuga do Planeta dos Macacos (1971)

Após a catástrofe instalada no filme anterior, os produtores apostaram no conceito de viagem no tempo, ainda que sem uma explicação muito clara. A obra se concentra nos personagens Zira e Cornelius. A Fuga brinca com comédia, suspense e drama, uma vez que os protagonistas ficam reféns dos humanos.

A Conquista do Planeta dos Macacos (1972)

Depois da escravidão dos símios, César, filho evoluído do casal do filme anterior, cria uma revolução com os de sua espécie. Diferente dos anteriores, A Conquista se concentra mais na ação, o que garante uma sequência de batalha com duração de 20 minutos, além de um discurso distópico de César, que, vale lembrar, foi alterado pelos produtores, visto que tinha sido mais forte e intenso que o esperado.

A Batalha do Planeta dos Macacos (1973)

O filme, mais dramático que o anterior, mostra uma cultura mais pacífica que aquela conhecida no original. César, no entanto, é obrigado a embarcar em outra aventura, o que cria uma rivalidade entre humanos e gorilas. Os vilões, inclusive, ainda que bobos, continuam a essência espiritual do livro original de 1968, quando todos são capazes de cometer maldades, independentemente da espécie.

Planeta dos Macacos (2001)

Tim Burton foi o diretor escolhido para comandar o remake da série que, ainda que um sucesso financeiro, não foi o suficiente para agradar a crítica e os produtores. O filme, que tinha várias pontas para uma continuação, se encerra de modo corajoso, mesmo quando desmitifica tudo que havia sido estabelecido anteriormente.

Planeta dos Macacos: A Origem (2011)

O filme, inspirado em A Batalha , traz César criando uma revolução parecida com o filme de 1971. Os efeitos, no entanto, formam o trunfo da refilmagem. Os macacos espantam por causa do realismo, ainda que sendo um incômodo para os fãs fiéis da saga original. O roteiro, por outro lado, se concentra nas homenagens, visto que têm citações ao filme original, como aquele easter-egg da Estátua da Liberdade, dos astronautas indo ao espaço e das situações similares.

Planeta dos Macacos: O Confronto (2014)

Considerado um clássico contemporâneo, O Confronto aplica um discurso político poderoso sobre golpe de estado, ditadura militar e sobre opressão, independente de qual espécie comete. Os vilões, baseados em ditadores reais, surpreendem com as suas ações.

 

Gabriel Amora para O POVO

Não existem avaliações

Deixe sua avaliação

DEIXE SEU COMENTÁRIO

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.