“Todo sacrifício foi em vão”, diz filho, que acampou em frente a UPA, ao perder o pai por Covid-19

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Após passar seis dias internado na UPA do bairro Vila Velha, e oito na UTI do Hospital Leonardo Da Vinci, o idoso faleceu na manhã desta quinta-feira (21).

A história que começou no dia 8 de maio, quando Jocélio da Silva, de 62 anos, foi internado na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro Vila Velha, em Fortaleza, teve um triste desfecho. O idoso, na manhã desta quinta-feira (21), após quatorze dias internado, sendo oito deles na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Leonardo Da Vinci, se tornou mais uma vítima do novo coronavírus.  No início da doença do pai, o filho Jessé dos Anjos passou seis dias dormindo na calçada da UPA por se recusar a sair de perto do pai, até conseguir um leito de UTI para o mesmo.  

O idoso foi internado, na UPA do bairro Vila Velha, com sintomas do novo coronavírus, como moleza, falta de ar e febre. Ele tinha algumas complicações, por ter comorbidades como diabetes e hipertensão.

Estudante de Direito, Jocélio da Silva conseguiu a transferência na madrugada da quinta-feira (14), depois de recorrer à Justiça para obter um leito em uma unidade hospitalar. O idoso que estava internado no Hospital Leonardo Da Vinci desde de então, faleceu na manhã de hoje (21).

“Ele aceitou [ser internado]com a condição que eu não ia deixar ele lá, sozinho, de jeito nenhum. Eu prometi para ele que logo logo ele estaria em casa e agora estou levando meu pai para o cemitério”, conta Jessé.

“Todo o sacrifício foi em vão, tudo”, disse o filho, abalado. Para a família fica um sentimento de perda imensurável e um desgaste emocional, por tudo que viveram nos últimos dias, principalmente pela dificuldade de conseguir informações sobre o quadro do pai com o hospital. “Todos esses dias, eu me humilhando por notícias [sobre meu pai], para saber como ele estava, para saber pela boca de outras pessoas ‘seu pai está indo bem, está evoluindo bem’, para de repente receber ligação do hospital dizendo que ele morreu”, disparou.

Fica o alerta

No Ceará a Covid-19 já fez 2.043 vítimas fatais, e a Secretaria de Saúde do Estado (Sesa) investiga se outros 600 óbitos estão relacionados ao coronavírus. Os dados são da plataforma digital da Sesa, IntegraSUS, na tarde desta quinta-feira (21). Em Fortaleza, o epicentro da epidemia no estado, a média de óbitos por dia chega a 24,34 e a proporção de óbitos com alguma comorbidade, na capital, chega ao número assustador de 42%. 

O universitário, Jessé dos Anjos, espera que a história de seu pai, que foi o primeiro da família a se prevenir, comprando álcool em gel, máscaras, luvas e a alertando os outros, mas mesmo assim pegou a Covid-19 de alguém que não seguia os protocolos de segurança, sirva de exemplo para as pessoas se cuidarem, pois o coronavírus não é apenas uma gripe. 

“Espero que o exemplo do meu pai sirva para abrir os olhos dos seus, sirva para salvar a vida de outras pessoas, e quem sabe também para as pessoas perceberem a necessidade de serem mais família, se cuidarem mais. Eu espero que isso sirva [de exemplo]para o bem de alguém”, frisou.

O sentimento de dor da família aumenta, ainda mais, por não poder se despedir de forma digna do idoso, pois as vítimas da Covid-19 seguem o protocolo de sepultamento com caixão lacrado, para evitar a contaminação dos presentes no local. “Eu queria dar um velório digno a meu pai, um sepultamento digno e honrar meu pai. Que sempre foi uma boa pessoa, um trabalhador, sustentou seis filhos, construiu casa para cada um de seus filhos. Ele foi um pai excelente”, pontua. “[Mas] hoje a gente vai enterrar meu pai, de uma forma não tão digna, porque essa doença não deixa”, lamentou.

DN 

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